A LGBTfobia faz o Brasil perder R$ 94 bilhões por ano

Um estudo do Banco Mundial revela que a exclusão de pessoas LGBTQIA+ do mercado de trabalho custa R$ 94 bilhões por ano ao Brasil. Mais do que um problema social, a LGBTfobia produz perdas econômicas e evidencia a importância da representatividade política.

Todo ano, quando junho chega, as ruas se enchem de cor, música e corpos que resistem. A Parada do Orgulho pulsa nas grandes cidades, e por alguns dias o Brasil parece mais generoso e mais plural. Eu amo essa festa. Acredito nela. Mas sei, e quem é LGBTQIAPN+ sabe, que a celebração dura dias e a discriminação dura o ano inteiro.

Este ano, quero usar esse espaço para falar de algo que vai além dos aplausos: quero falar de números, de poder e de quem está, ou não está, dentro do Congresso Nacional para transformar realidade em política pública.

O que revela o estudo do Banco Mundial sobre a LGBTfobia no Brasil

Em maio deste ano, o Banco Mundial publicou um estudo que deveria ter ocupado manchetes por semanas. O título resume o tema: O Custo Econômico da Exclusão Baseada em Orientação Sexual, Identidade e Expressão de Gênero e Características Sexuais no Mercado de Trabalho Brasileiro.

Os dados são difíceis de ignorar.

A taxa de desemprego entre pessoas LGBTI+ é de 15,2%, praticamente o dobro da média nacional, de 7,7%. A taxa de inatividade chega a 37,4%, acima dos 33,4% registrados na população geral. Pessoas trans, não binárias e intersexo são as que mais relatam episódios de discriminação e exclusão profissional. Entre travestis e pessoas trans, aproximadamente 70% não concluíram o ensino médio e apenas 0,02% estão matriculadas no ensino superior.

O resultado de tudo isso?

O Brasil perde R$ 94,4 bilhões por ano, o equivalente a 0,8% do PIB, por conta da LGBTfobia no mercado de trabalho. Só em perdas fiscais, o impacto chega a R$ 14,6 bilhões.

Não estamos falando de uma questão identitária isolada. Estamos falando de desenvolvimento econômico, de arrecadação pública, de cidadania. Quando o preconceito ganha, toda a sociedade perde.

Por que a representatividade LGBTI+ no Congresso importa

Se esses números revelam a profundidade do problema, a composição do nosso Congresso revela o vazio político.

Nas eleições de 2022, ao menos 304 candidaturas LGBTI+ disputaram mandatos em todo o país. Dessas, 18 foram eleitas, entre parlamentares estaduais e federais, um número recorde, celebrado com razão, mas que precisa ser lido com honestidade. No Congresso Nacional, chegaram apenas quatro deputadas federais LGBTQIA+, num universo de 594 parlamentares, para representar uma população que, segundo estimativas, corresponde a mais de 10% dos brasileiros. É pouco. É muito pouco.

E não é por falta de vontade política dessa população. É por conta das barreiras que se acumulam desde antes da candidatura: a discriminação que expulsa jovens LGBTI+ da escola e do mercado de trabalho, a violência que silencia trajetórias, a invisibilidade que apaga histórias. Quem não tem acesso à renda, à educação e à segurança dificilmente consegue construir uma candidatura viável.

A representatividade importa não como símbolo, mas como método. Pessoas LGBTI+ no Congresso não apenas representam: elas formulam. Elas sabem, pela experiência vivida, quais são as perguntas que precisam ser feitas, quais as lacunas das políticas de saúde, de educação, de trabalho, de segurança pública. Elas transformam ausência em pauta, invisibilidade em lei.

Carla Ayres defende a ampliação da representatividade LGBTI+ para fortalecer políticas públicas e combater a discriminação. Foto: Guilherme Santos.

O que está em jogo nas eleições de 2026

Disputar uma vaga na Câmara Federal, para mim, é exatamente isso: levar para o centro do poder a experiência de quem conhece a exclusão por dentro.

Como vereadora, aprendi que política pública que não parte da realidade não chega a quem precisa. É simples assim, e é profundamente difícil de fazer quando os corredores do poder não têm diversidade suficiente para enxergar o que precisa ser feito.

O Brasil avançou. A criminalização da LGBTfobia pelo STF, o direito de pessoas trans alterarem documentos sem necessidade de cirurgia, a ampliação do debate sobre identidade de gênero em espaços institucionais são conquistas reais.

Mas o estudo do Banco Mundial é categórico: os avanços legais não foram suficientes para mudar a estrutura. A discriminação permanece viva no cotidiano do trabalho, na escola, no consultório médico, na rua.

Mudar isso exige mais do que leis. Exige orçamento, fiscalização, implementação. E isso só acontece quando as pessoas diretamente afetadas estão dentro das instâncias que decidem.

Orgulho LGBTI+ também significa representação política

Orgulho é dançar na avenida. É ocupar o espaço público com alegria e com a certeza de que existir é um ato político. Mas orgulho também é essa conversa que estou tendo com você agora, a conversa sobre poder, sobre representação, sobre o que muda quando corpos dissidentes chegam aos lugares que decidem o futuro.

Neste 28 de junho, celebro cada pessoa que resistiu para estar aqui. E reafirmo o compromisso que me move: ampliar a bancada LGBTI+ no Congresso Nacional não é uma bandeira de nicho. É uma necessidade democrática.

Quando uma bancada tão pequena precisa dar conta de uma população de milhões, algo está errado. Em 2026, precisamos mudar esse número.

A LGBTfobia faz o Brasil perder R$ 94 bilhões por ano
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